Ser professor

Hoje decidi deixar a estrada como minha companheira e apadrinhei momentâneamente o sofá e a televisão.

Estava expectante em relação ao discurso do senhor Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, no dia do 5 de Outubro, visto que o assunto seria centrado na educação.

E eis que no meio de tanta mediocridade e insensibilidade socialista que no meio reformador que tanta anuncia, tenta desinspirar e maltratar a nível financeiro, social e pessoal os professores deste país, surge o mais alto cargo político de representação do povo exultar o acto heróico diário dos professores que além de ensinarem a matéria escolar aos seus alunos também se obrigam a dar a estes a educação que em casa não têm.

Em primeiro lugar, deve-se referir a coragem que o senhor Presidente da República teve ao considerar os pais e a comunidade, como um dos maiores responsáveis pela escola e todo o seu envolvimento social. Responsabilizou e alertou para o facto de serem os pais e a comunidade a estarem cada vez mais perto das escolas e cada vez mais integrados no funcionamento diário da escola. Dado isto, o dever destes seria acompanhar e coadjuvar os alunos, professores e pessoal auxiliar a formar uma escola com orgulho para todos.

Em segundo lugar, incentivou as comunidades escolares a terem uma maior abertura para o facto de trabalharem em conjunto para conseguirem completar da melhor forma uma parte da formação de cada individuo. E para não considerarem as escolas como simples lugares de depósito ou fábricas de ensino, em que ao fim do dia estão prontos para serem despejados para as suas casas ou postos “à venda” num lugar qualquer. A escola tem de ser encarada para todos como um lugar de orgulho, onde a formação pessoal é posta em primeiro plano. Mas sem que seja declarada como um lugar de despejo de pessoas a crescerem diáriamente. A escola como lugar de despejo deve-se apagar rapidamente.

Terceiro ponto, gritou serenamente aos ouvidos dos pais e dos alunos, para que tenham em consideração os professores das escolas. Não que tenham de ser tratados como seres altivos como na época salazarista, mas que sejam tratados como seres competentes e capazes de ensinarem os alunos a inserirem-se na sociedade. O tratamento especial que devem ter os professores é um tratamento de carinho  e de especial atenção pela carga emocional e afectiva que tantos impõem na sua vida profissional.

Bem Senhor Presidente da República, politicamente falando, conseguiu arrecadar mais uns votos para o seu partido com estas declarações, tanto pela classe docente (que tanto ódio começa a ter pelos idealistas socialistas que se encontram a governar) como pela parte dos pais que ficaram a admirar um presidente consciente dos problemas sociais e com visão futurista. Afectivamente falando, conseguiu incutir no dia a dia dos docentes uma maior alegria no trabalho pelo simples facto de lhes mostrar que alguém que tem responsabilidades políticas defende as suas profissões e lhes reconhece importância na sociedade, valorizando-a e dando-lhe um crédito que há muito tempo ninguém referia.

É por termos pessoas competentes como você que ainda acreditamos no valor de sermos professores e defendermos contra tudo e contra todos a nossa profissão. Sem nos querermos identificar com o corporativismo criado por esses regimes antigos de professores, desejamos acima de tudo que seja valorizada e tratada com respeito a nossa profissão.

Claro que estamos conscientes dos problemas da sociedade, em que os pais têm de ter 2 empregos para conseguirem sobreviver, em que a crise económica estraga os planos de uma família, em que as 24 horas diárias já não são suficientes para se resolverem tooos os problemas, em que as desigualdades sociais se acentuam cada vez mais. Temos essa consciência. Mas nós também somos seres envolventes dessa sociedade, e muitos de nós pais, logo também partilhamos desses problemas, mas não é com isso que vamos deixar de respeitar o trabalho dos outros.

Contudo perante tanta admiração, devo salientar um ponto de uma certa discórdia e revolta. Referiu que não estava a falar para o governo mas sim para a população… eis que a sua declaração perdeu metade do se fulgor tanto para docentes como para pais, pois perante tantas palavras sábias ditas com total razão, perdeu velocidade quando se colocou ao lado do governo perante as atrocidades sociais a que este está a levar a cabo (a não ser que o seu discurso fosse de alguma forma implícita um recado para o seio politico). Pois se formamos tantos professores para depois não lhe darmos uma carreira, para lhe retirarmos a estabilização profissional e familiar, então para quê tanta preocupação com a educação dos nossos filhos. Se não damos condições aos formadores como vamos querer dar estabilidade e condições ao formandos?

Gostei muito da sua declaração de preocupação para com o estado da educação e para com a imagem credível dos professores, mas o futuro dos cidadãos mais jovens também depende da seurança e da estabilidade desse mesmo corpo docente. Não queira dar um nó e depois desatá-lo, faltou essa coragem para enfrentar as não-reformas do governo socialista.

No sofá da ilha, desta vez,

Nuno Santos

This entry was posted on Friday, October 5th, 2007 at 12:35 pm and is filed under Uncategorized. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

1 Comment

  1. carreira Says:

    Este discurso foi uma lufada de ar fresco e um tónico essencial para todos os professores qu nos últimos tempos têm sido desconsiderados, desclassificados…
    Espero que este sinal do senhor presidente seja absorvido e sorvido pelos elementos do governo.

    October 6th, 2007

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